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sexta-feira, 19 de junho de 2026
Sobre a declaração de utilidade pública municipal em Rio Branco
Escrevo para compartilhar a felicidade que é partilhar mais uma conquista do Instituto Gaiato - uma instituição que segue nos dando orgulho por todos os lados. Fomos oficialmente reconhecidos como entidade de utilidade pública municipal. Incrível... e quase contraditório com a nossa própria filosofia de existir.
Explico.
A utilidade é a última coisa que buscamos. Defendemos encontros culturais lúdicos e afetivos que não existem para ser úteis... Existem para ser desfrutados em sua inteireza, para nos permitir nos sentirmos vivos e corporalmente conectados, sem pensar no depois. Para que o encontro entre seres humanos retome seu lugar de protagonismo em meio a telas, algoritmos e demandas de trabalho, estudo e produtividade.
O Instituto nasceu não para servir para algo, mas para ser em si.
E assim, a gente se encontra porque se gosta e porque ama a cultura. Só que quando a gente se encontra, "o mundo sai do lugar". Porque através de nós nascem quadrilhas juninas, peça de teatro, brincadeiras com crianças na praça pública, mostra de cinema de direitos humanos, esculturas sustentáveis, pesquisa teatral, dramaturgia acreana e tantas outras coisas. Um Instituto que não foi criado para servir, acaba promovendo encontros de gente tão talentosa que, por consequência, movimenta a sociedade nos territórios em que atua. E não movimenta pouco, movimenta muito. É relevante por natureza. É público, social e aberto a todo mundo que quiser fazer parte desse ajuntamento de gente reunida pelos elos do afeto.
Hoje celebramos o efeito que causamos através do que nos propomos a fazer em coletivo. Ganha o um, ganha o coletivo, ganha a cidade - e ganha, inclusive, o país. E sobre isso, o Ministério da Cultura nos trouxe neste junho de 2026 um reconhecimento à altura: somos agora um PONTÃO DE CULTURA, ou seja nossa Rede foi vista desde a sua esfera nacional, porque o nosso trabalho não cuida só do micro. Nascemos em Rio Branco, nos lançamos no mundo e ainda assim seguimos aqui, sem fechar os olhos para a nossa terra natal. Conectamos culturas, fortalecemos vínculos. Somos ao mesmo tempo laboratório de pesquisa, terreiro, quadrilha, ateliê de manualidades, território rural, quintal produtivo. Com a gente ganha a Cultura, os Direitos Humanos, a Assistência Social. Em tempos de epidemia de solidão, somos vínculos criativos.
É isso que estamos celebrando aqui. Cada ação, cada projeto, cada frente, cada artista e voluntário que se aproxima de nós.
E seria desonesto da minha parte celebrar sem nomear o que ainda nos falta.
Na rua da nossa sede, no bairro Eldorado, o mato e a lama tomaram conta da via. Os carros, motos e pedestres já não passam mais. A van do Estado que nos levou ao Bujari para trabalhar com famílias de autistas precisou parar na esquina. O que já é nossa rotina.
Mesmo tirando nota máxima, sem faltar um décimo da suposta perfeição no Edital Municipal de Cultura, somos desabilitados por critérios de desempate que favorecem as mesmas instituições mais antigas a receberem os recursos todos os anos e seguirem se desigualando em detrimento de projetos da juventude do município e dos artistas periféricos em ascensão.
Nossa Mostra de Dramaturgia Acreana, sucesso intermunicipal em 2025, sequer pode concorrer por barreiras formais como o critério de 3 anos de CNPJ, como se 10 anos de trajetória cultural deixassem de contar no momento do recurso público.
Mesmo assim, seguimos. Com um perfil jovem, majoritariamente negro, de artistas periféricos. Voluntariamente. Porque acreditamos nessa instituição, nos seus valores e no legado que deixamos para esta cidade e para os nossos demais territórios.
A utilidade pública não veio nos definir. Veio confirmar o efeito e a relevância do que fazemos.
Que esta assinatura seja mais um elo nesse ajuntamento que não para.
Muito obrigado.
Nol